Pai,
Não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda é em mim.
Sei apenas que não partiu por inteiro
há passos seus nos meus caminhos,
há gestos seus nas minhas mãos,
há silêncio seu nas decisões que tomo.
Foi filho antes de ser tudo o resto,
e fez-se homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foi marido,
foi porto seguro,
e foi casa.
E foi Pai
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.
E mesmo assim, cabe.
Cabe na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.
Eu digo que o perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-o.
Tenho-o em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.
E prometo-lhe, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira
que hei de honrar o homem que foi.
Serei justo, como me ensinou.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foi para mim.
E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de si que se levanta comigo.
Porque não se foi.
Transformou-se.
Agora é caminho.
Agora é raiz.
Agora é voz dentro de mim.
E eu sigo,
com saudade, sim
mas também com orgulho.
Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.


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