sexta-feira, 20 de março de 2026

 Pai,

Não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda é em mim.
Sei apenas que não partiu por inteiro 
há passos seus nos meus caminhos,
há gestos seus nas minhas mãos,
há silêncio seu nas decisões que tomo.

Foi filho antes de ser tudo o resto,
e fez-se homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foi marido,
foi porto seguro,
e foi casa.

E foi Pai 
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.

E mesmo assim, cabe.

Cabe na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.

Eu digo que o perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-o.
Tenho-o em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.

E prometo-lhe, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira 
que hei de honrar o homem que foi.

Serei justo, como me ensinou.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foi para mim.

E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de si que se levanta comigo.

Porque não se foi.
Transformou-se.

Agora é caminho.
Agora é raiz.
Agora é voz dentro de mim.

E eu sigo,
com saudade, sim 
mas também com orgulho.

Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"Não há terra como a nossa"

 A aldeia de Quarta-Feira acorda devagar, como quem sabe que o tempo aqui não manda — pede licença. As casas guardam histórias nas paredes caiadas, e cada pedra parece conhecer o nome de quem passa. O silêncio não é vazio: é feito de passos antigos, de vozes baixas à porta e do vento que atravessa os campos como um recado suave.

Na Quarta-Feira, o dia tem cheiro de terra quente e pão acabado de sair do forno. As manhãs são claras, lavadas de sol, e as tardes estendem-se em sombras compridas, onde se contam memórias sem pressa. Há uma sabedoria simples no modo como tudo acontece: o sino marca as horas, mas quem decide o ritmo é o coração da aldeia.

As pessoas conhecem-se pelo nome e pelo olhar. Cumprimentam-se com gestos pequenos, mas cheios de sentido. Aqui, a vida não corre — caminha. E nesse caminhar tranquilo, a Quarta-Feira ensina que há beleza na repetição, força na simplicidade e poesia nos dias comuns.

Quando a noite cai, a aldeia acende poucas luzes, suficientes para iluminar o essencial. O céu aproxima-se, estrelado, como se também quisesse ficar. E quem passa pela Quarta-Feira leva consigo a sensação rara de ter estado num lugar onde o mundo ainda sabe respirar.

domingo, 18 de janeiro de 2026

 No passado dia 15 de janeiro faleceu em Camarate, o Sr. Fernando Leal Costa. Paz à sua alma.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026