sexta-feira, 20 de março de 2026

 Pai,

Não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda és em mim.
Sei apenas que não partiste por inteiro 
há passos teus nos meus caminhos,
há gestos teus nas minhas mãos,
há silêncio teu nas decisões que tomo.

Foste filho antes de seres tudo o resto,
e fizeste-te homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foste marido,
e foste porto seguro,
e foste casa.

E foste Pai 
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.

E mesmo assim, cabes.

Cabes na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.

Eu digo que te perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-te.
Tenho-te em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.

E prometo-te, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira 
que hei de honrar o homem que foste.

Serei justo, como me ensinaste.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foste para mim.

E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de ti que se levanta comigo.

Porque não te foste.
Transformaste-te.

Agora és caminho.
Agora és raiz.
Agora és voz dentro de mim.

E eu sigo,
com saudade, sim 
mas também com orgulho.

Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.